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Como numa tela de cinema

Sobre como a guerra das drogas faz de uma cidade um filme noir


Por Karine Muller
Relatando de Rio de Janeiro

5 de março 2003

“Uma lente negra protege os olhos dando chance a outros pontos de vista”

(Max de Castro – músico e poeta – referindo-se ao compositor carioca Cartola)

Primeiro de março de 2003, Rio de Janiero, Brasil: Passam por nós, supermercados saqueados, lojas fechadas, ônibus queimados, granadas explodindo em frente a prédios luxuosos, viaturas de polícia rasgando as ruas da cidade, trânsito parado, população em estado de alerta…Um verdadeiro cenário de filme noir tem sido o Rio de Janeiro nestes últimos dias.

A beleza e a produtividade cultural das favelas tão bem retratada em “Rio 40 Graus” de Nelson Pereira dos Santos, perde espaço, definitivamente, para “Cidade de Deus” de Fernando Meirelles. Toda a idéia de exclusão que leva seus jovens moradores a trabalhar para o tráfico de drogas e ter acesso aos penduricalhos modistas da sociedade, agora manifesta-se em atos de violência espalhados por toda a cidade.

Ouvi o Secretário de Segurança Pública, Josias Quintal, dizer que o tráfico no Rio está em crise. As drogas que estão chegando não são boas, o que gera deficiências econômicas no varejo, ou seja, nas favelas. Diante disso, traficantes da facção criminosa Comando Vermelho, liderados por Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar supostamente revoltados com esta situação – nos conta a mídia – mostram todo o seu poder contra o Estado e a sociedade e consolidam o NarcoEstado.

Até o atual Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, admite que a situação no Rio é muito grave e disponibiliza ajuda das Forças Armadas para o policiamento nas favelas. E exige também que Beira-Mar seja transferido para um presídio longe do Rio de Janeiro.

Não é a primeira vez que – a mídia nos conta – que o traficante comanda da sua prisão em Bangú I, atos criminosos. Dizem que ele já mandou parar a cidade por duas vezes, ordenou o ataque a tiros ao Palácio do Governo e a sede da Prefeitura, esteve à frente de várias rebeliões no Complexo de Bangú, uma das maiores prisões do país, e mandou matar seus inimigos da facção chamada de Terceiro Comando.

Fernandinho Beira-Mar nasceu na Favela Beira-Mar e começou a vender drogas antes dos 20 anos. Segundao as autoridades, aliou-se a traficantes do Paraguai e, mais tarde, a guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), – algo que as FARC negaram publicamente – com os quais negociava armas em troca de cocaína, transformando-se num dos maiores vendedores de drogas no atacado do Brasil. Segundo a polícia, ele seria responsável por 60% do tráfico no país.

Mas, este filme a que estamos assistindo começa na fronteira. O Brasil é o segundo maior mercado consumidor de drogas do mundo de acordo com algumas agencias internacionais, ou ao menos é a segunda nação consumidora após os Estados Unidos. A cidade do Rio de Janeiro apenas é o reflexo imediato de uma política fracassada de guerra contra as drogas. Beira- Mar e seus seguidores são álibis de peixes maiores que ganham milhões de dólares com a ilegalidade. Rostos que nunca vamos conhecer enquanto a imprensa brasileira estiver focada somente nas favelas.

Em seu livro “ O Narcotráfico “ o jornalista Mário Magalhães da Folha de S. Paulo, afirma que a discussão acerca da proibição das drogas no Brasil começou a ser discutida mais de 250 anos atrás quando, em 1737, a Câmara de São Paulo restringiu a “ médicos, boticários e cirurgiões “ a venda de substâncias como o ópio. Após protestos de comerciantes, o rei d. João V revogou a ordem no ano seguinte. O escritor conta-nos também que em 1914, o jornal O Estado de São Paulo falava em filhos de famílias abastadas, usuários de cocaína, que se deixavam “arrastar até os declives mais perigosos deste vício”.

No Rio de Janeiro, segundo ele, o compositor carioca José Barbosa da Silva, o popular Sinhô (1888-1930), “rei do samba”, compôs uma música intitulada “A Cocaína”. Segue alguns versos:

Só um vício me traz
Cabisbaixa me faz
Reduz-me a pequenina
Quando não tenho mão
A forte cocaína.

Isto para ilustrar a forte presença das drogas entre intelectuais e artistas que fizeram a história cultural da cidade na década de 20.

A diferença entre o passado e hoje, é que o usuário faz parte de uma cadeia gigantesca, de consequências desastrosas para a humanidade, que se fecha com o consumo. A indústria das drogas ilegais movimenta mundialmente US$ 400 bilhões por ano. De acordo com algumas fontes, este valor corresponde á 8% do comércio internacional.

E é por isso que forças maiores impedem a legalização. A proibição fomenta a indústria do tráfico. Os maiores beneficiados disto tudo : os corruptos, mafiosos, políticos que estão muito acima do que todos – e as celebridades narco traficantes criadas pela mídia – como Fernandinho Beira-Mar.

Fundamentalmente, o crime do narcotráfico é disseminar uma mercadoria que pode destruir o ser humano e agregar a isto um grantes doenças sociais como violência, intimidação, corrupção, terror e medo. Contudo o Estado, se não dá conta do crime organizado, não deve se intrometer na liberdade individual de cada um. Consumir drogas ou não é uma decisão pessoal. As verbas hoje empregadas no combate ao narcotráfico poderiam ser revertidas para outras atividades relevantes na área social, bem como no tratamento de dependentes químicos.

Atualemtne no Rio, fala-se muito em “Poder Paralelo”, “Estado Paralelo” causado pelos narcotraficantes que estão enriquecendo com a proibição das drogas. Mas, o que está claro mesmo neste filme que está rodando é o “Universo Paralelo”. Este que se vê nas ruas de Copacabana, a babilônia do Rio de Janeiro, onde os negócios do narcotráfico acontecem camuflados por um sistema que o protege.

A população assiste a tudo. E quando acendem as luzes, de noite, tudo parece invisível nesta cidade de Deus, dos Homens, dos Narcotraficantes.

Agora é Carnaval. Se o poeta Cartola estivesse vivo ainda, certamente teria no reflexo de seus óculos escuros o povo pobre fazendo da arte história… E claro, do policiamento das forças armadas nas favelas, ruas, sambódromo etc.

Mas o que diria ele, por trás de seus óculos escuros, sobre a politica de proibição das drogas e o que essa terrível policia fez ao Rio? Apesar de tudo, como todo bom carioca não deixaria o samba morrer na cidade maravilhosa.

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