<i>"The Name of Our Country is América" - Simon Bolivar</i> The Narco News Bulletin<br><small>Reporting on the War on Drugs and Democracy from Latin America
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Uma Política de Drogas a Partir da Base

De um Salão no Rio de Janeiro, o Futuro está Nascendo


Por Al Giordano
Parte I de uma série reportado do Rio de Janeiro

27 de março 2003

Tradução: Luiz Paulo Guanabara

25 de MARÇO de 2003; RIO DE JANEIRO, BRASIL: Trinta e cinco pessoas vindas de cantos distantes desse gigantesco país se reúnem em um hotel em Copacabana; vinte e três delas são mulheres, os rostos resplandecendo um autêntico prisma de colorações, alguns brancos, mas não pálidos, a maioria deles, de mulato a negro.

Em nítido contraste com os nichos de poder nesta e em outras nações da América, não se vê na sala nem ternos nem gravatas, nenhuma roupa de grife ou relógios Rolex. Esta sala reflete uma fotografia mais precisa da maioria.


Os autênticos especialistas na politica de drogas reúnem-se no Rio de Janeiro
Foto DR 2003 Al Giordano

Especialistas Autênticos em Política de Drogas se Reúnem no Rio

Caro leitor, não se deixe enganar pelos preconceitos: aqui, hoje, neste salão, a futura política de drogas de uma nação – uma política que fará estremecer as políticas de drogas de outras nações americanas, e provavelmente as do seu país também -, está sendo formulada.

A política de drogas que está sendo discutida aqui não é imposta de cima. Ela se ergue da base, do conhecimento direto de verdadeiros especialistas, incluindo adictos, ex-adictos, agentes comunitários, mães, pais, agentes de saúde, pessoas – inclusive, mas, não limitado àqueles de nós que sobreviveram à margem da economia da sociedade, ao menos durante parte das nossas vidas – seres humanos que viveram, que realmente viveram, pessoas cuja experiência com o objeto que estão discutindo, ao nível humano, é direta: drogas, usuários de drogas, dependentes de drogas, prisioneiros, repressão e medidas práticas para reduzir e eliminar os danos produzidos pelo atual sistema.


Simone Bastos de Menezes
Foto D.R. 2003 Al Giordano
Simone Bastos de Menezes, nascida na Bahia, estudou direito e, embora não tenha terminado o curso, ela é hoje amplamente considerada uma das principais especialistas leigas em direitos de presidiários no Brasil (A nossa Diretora de Estratégia Adriana Veloso relizou uma entrevista com ela. Confira!)


Celia Szterenfeld
DR 2003 Al Giordano
A carioca, Célia Szterenfeld terminou seu mestrado em psicologia na Universidade de Columbia, Nova York, em 1986, sendo que parte dele foi realizado na Universidade de Jerusalém, Israel (veja a entrevista relacionada, feita pelo seu correspondente, na Parte 2 dessa série). Hoje ela trabalha com dependentes e usuários de drogas, com profissionais do sexo, com aglomerados de seres humanos marginalizados que começaram a trilhar a estrada para a auto-gestão e ajuda mútua.

Acho que conheci aqui cerca de uma dúzia de psicólogos formados, nenhum deles nem de leve parecido com tantos que na minha terra utilizam esse título como forma de poder pessoal (a educação pública, apesar dos esforços do Fundo Monetário Internacional, ainda está viva e bem no Brasil; tenho a impressão que Condescendência 1, Esnobismo 2, Poder sobre os Pacientes 3 e Cobrando por Hora 4 não são disciplinas obrigatórias para se graduar aqui). “É mesmo?”, lhes pergunto, agradavelmente surpreendido. “Você é uma psicóloga profissional? Bem, isso é uma grande coincidência, porque me sinto como um paciente profissional.” Mas, ah, eu divago…

Ana Paula Almeida Rocha, de Ponta Grossa, cidade próxima à fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, está sentada no canto deste salão, digitando em um laptop, anotando as revisões, mudanças, adendos, as palavras adicionadas e subtraídas da declaração política breve e corajosa que esses Especialistas Autênticos estão elaborando.

No entanto, a sabedoria das palavras que são faladas aqui não emana de um diploma universitário, um título pomposo, um terno, uma gravata, uma roupa de grife cara, uma mesa, um telefone, uma fortaleza conhecida como prédio governamental, uma companhia farmacêutica, um escritório organizacional, ou uma sala de controle de televisão…

O caminho para esse acordo que se desenvolve aqui, nesta sala, deixou marcas nos braços de alguns dos autores, levou outros a visitar prisões e ainda outros a serem arrastados com algemas nos braços e surrados nas celas por detrás das grades… seguiram procissões funerárias aos cemitérios – onde os mártires encontravam repouso após serem derrubados pela AIDS, pelas overdoses, pelos ferimentos de uma bala na cabeça, por uma doença curável, mas sem acesso aos médicos ou aos medicamentos básicos… é o caminho das lágrimas dos lastimadores… a rota para essa convergência tem um nome: Sua Rua, Minha Rua, Qualquer Rua Antiga, Todas as Ruas…

Paula Daniele Martins, 26, diz voluntariamente que cresceu em extrema pobreza. Hoje ela trabalha com dependentes de crack. Paula não me passa a impressão de ser um deles: ela é uma imagem de força e vitalidade; goleira do time de futebol da sua cidade de Cachoeirinha, mãos ágeis, ombros largos, olhos brilhantes… Ela aprendeu um pouco de espanhol no Uruguai, ao fazer um treinamento de guia turístico, idioma que ela gentilmente utiliza para comunicar- se com o seu correspondente lingüisticamente impossibilitado… Paula senta-se no parapeito do terraço do Hotel Copacabana Sol, onze andares acima do nível do mar, com ambos os pés em cima do parapeito, nada, nem uma perna, nem uma das mãos para contrabalançá-la em cima desse parapeito, para impedí-la de cair no abismo que seu escritor evita olhar devido aos seus poderes de induzir vertigem … Não há nada além de ar para Paula segurar-se, exceto tudo, ou tudo que parece valer a pena nesse momento pelo qual o Brasil está passando: equilíbrio interno, a gravitas que resulta de se conhecer a vida, não de apenas assistí-la na televisão ou nas explicações recebidas em sala de aula.

“Eu me auto-eduquei”, ela irradia.

Os combatentes anti-drogas, já posso ver, vão se ver em sérias dificuldades, se tentarem fazer com que sua bola antidemocrática vença essa goleira e os outros como ela…

O relógio invisível da história pendurado acima dessa nação assume a forma de um círculo, como o sol que há muito, muito tempo não era visto na muralha chamada de céu brasileiro… A ditadura militar de 1964 e todas as atrocidades e transtornos desde então, todos os reformistas e tecnocratas medíocres do mercado que tentaram entrar na política por cima, todos os covardes e engravatados imitadores dos “valores” e políticas dos Estados Unidos, todos esses que não conseguiram seduzir o sol para fazê-lo nascer novamente.

Mas em outubro passado, como o Chefe do Escritório Andino do Narco News, Luis Gómez, reportou desta e de outras cidades brasileiras, durante as históricas eleições, enquanto elas estavam acontecendo, tanto o primeiro turno em 6 de outubro e o segundo turno, em 27 de outubro: Agora é Lula, o povo falou.

O novo presidente do Brasil, Lula da Silva, um metalúrgico que perdeu um dedo na fábrica e ganhou a presidência nas urnas, sentiria-se em casa nesse quarto hoje, mais relaxado, provavelmente, do que se sente em seu gabinete presidencial. De fato, ele enviou duas funcionárias do Ministério da Saúde para falar com e ouvir esses 35 Especialistas Autênticos na manhã de terça-feira.

Como lhes noticiamos antes, Lula assinou uma carta há alguns anos que afirmava que “a proibição de drogas causa mais danos do que as próprias drogas”. Um de seus conselheiros para política de drogas, ex-czar federal das drogas da administração anterior, Walter Maierowitch, fez recentemente um apelo público ao Lula para que ele se pautasse pelos seus princípios declarados e mudasse a política de drogas dessa nação.

A política de drogas brasileira vai mudar.

Todos concordam. Ninguém duvida disso.

As dúvidas são: Com que rapidez ela mudará? E: até que ponto? Caro leitor, você pode guardar um segredo? A Mídia Comercial não vai contar a verdade até a batalha terminar: a próxima política de drogas deste país tem grandes chances de ser a primeira de uma nação americana a não ser imposta de cima para baixo, por decreto antidemocrático.

Enquanto os burocratas e políticos deixam um vácuo, a próxima política de drogas da maior nação da América do Sul será articulada, impulsionada e abastecida a partir da base, das pessoas que têm pouco e, portanto, adquiriram a verdadeira riqueza – conhecimento direto – saber o que a política de drogas precisa, o que o Brasil precisa, o que toda a América precisa… Eles sabem, como indivíduos e membros de comunidades, o que precisam… o que você precisa … o que eu preciso… o que nós precisamos… Uma política orientada pela experiência, pela experiência direta, por aqueles com um envolvimento humano direto nessas políticas, pela auto-gestão e auto-valorização daqueles que conhecem as drogas, daqueles que conhecem os usuários, que conhecem os viciado, que conhecem os danos, mas que também conhecem a natureza humana, melhor do que qualquer burocrata ou “especialista” da mídia, quando se trata de drogas e do seu uso.

A declaração destes 35 Especialistas Autênticos foi curta e direta: para que cortar hectares de árvores da Floresta Amazônica, quando você pode dizer a mesma coisa em um parágrafo. Hei-lo; a sabedoria coletiva, a articulação da “Vox Populi” destilada em 95 palavras, em uma página:

Moção em Apoio da Revisão da Política Nacional Anti-Drogas

“As Associações Estaduais de Redução de Danos e outras Organizações Não-Governamentais, representando aproximadamente 200 projetos de redução de danos em 18 estados, que têm como característica a defesa da saúde e dos direitos humanos dos usuários de drogas lícitas e ilícitas, reunidas para o Treinamento Pedagógico realizado pela Associação Brasileira de Redutores de Danos (ABORDA), na cidade do Rio de Janeiro, de 24 a 28 de março de 2003, declaram seu apoio ao Movimento para a Revisão da Política Nacional Anti-Drogas, pois somos testemunhas da ineficácia da política atual, que é dedicada à exclusão e marginalização dos usuários de drogas.”

Isto é, caros leitores, noventa e cinco palavras da linha de frente de organizadores que estão presentes em 200 localidades por todo Brasil. Em cada uma dessas localidades existe um exército virtual de usuários de drogas e outros que estão resgatando seus direitos humanos básicos de um sistema cruel e bizarro.

O grupo então enviou Celia Szterenfeld a São Paulo pela ponte aérea de quarta- feira para entregar esse apoio ao Movimento para a Revisão da Política Nacional Anti-Drogas, mencionado acima. A Jornalista Autêntica Karine Muller estava no local em São Paulo e vai narrar-lhes essa história, aqui, nas páginas da Narco News. Fique ligado… Essa história está apenas começando…

Foi uma breve declaração; breve o bastante, uma pequena nota do tamanho certo para ser atada a um tijolo e atirada pela janela do Poder…. Uma declaração para um “Movimento para a Revisão da Política Nacional Anti-Drogas” e contra a “política atual, que é dedicada à exclusão e marginalização dos usuários de drogas”.

Sobre o som das ondas do Atlântico quebrando nas areias da Praia de Copacabana, o seu escritor ouve um outro som: o de uma janela… Ou, mais precisamente, de um teto de vidro que tem sido usado há décadas para oprimir os usuários de drogas… Eu posso ouví-lo, a centenas de milhas distante… despedaçando-se em uma centena de milhões de fragmentos.

Prestem atenção, caros leitores, alegrem-se e sejam solidários; ouçam esse som e cuidado com o vidro quebrado: o caminho para mudanças na política de drogas, para o fim da proibição, pavimentado com o suor e as lágrimas e o sofrimento das massas submetidas a uma política anti-democrática e injusta, está sendo construído, como toda edificação sólida, a partir da fundação… de baixo para cima… da base.

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