<i>"The Name of Our Country is América" - Simon Bolivar</i> The Narco News Bulletin<br><small>Reporting on the War on Drugs and Democracy from Latin America
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Narco News Issue #28
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A cultura mais saudável do planeta

Um norte-americano cai de amores pelo Brasil


Por John Perry Barlow
Especial para The Narco News Bulletin

7 de abril 2003

Traduzido por Ana Luiza Cernov Rocha

Nota do editor: Aproximadamente uma semana após minha chegada ao Brasil, recebi um comunicado da professora da Escola de Jornalismo Autêntico do Narco News, Annie Harrison, de algum lugar de um país chamado Califórnia, com uma cópia do e-mail mais interessante e mais poético escrito por John Perry Barlow, que também estava no Brasil.

Barlow, ex-letrista do Grateful Dead e co-fundador da Electronic Frontier Foundation (EFF) – a única organização de defesa de Liberdades civis e liberdade de imprensa que saiu em defesa do Narco News no caso “ Guerra às Drogas em julgamento” em 2001 – abriu em São Paulo, no dia 7 de março, a convenção Mídia Tática que encerrei no dia 16. Infelizmente, não cheguei em tempo de ver sua apresentação, feita junto com Gilberto Gil, o novo Ministro da Cultura do Presidente Lula.

Já entrevistei Barlow, em 1995, para uma matéria do Boston Phoenix entitulada “Ainda estamos nos divertindo?”. Neste mesmo ano, ele apareceu no meu fórum de cyber-chat no Delphi Internet Service. E é claro, sinto como se o conhecesse, através de suas músicas…

Shipping powders back and forth,
Singing black goes south and white comes north.
In a whole world full of petty wars,
Singing I got mine and you got yours.
And the current fashion sets the pace,
Lose your step, fall out of grace.
And the radical, he rant and rage,
Singing someone’s got to turn the page.
And the rich man in his summer home,
Singing just leave well enough alone.
But his pants are down, his cover’s blown…

And the politicians throwin’ stones,
So the kids they dance
And shake their bones,
And it’s all too clear we’re on our own.
Singing ashes, ashes, all fall down.
Ashes, ashes, all fall down…

– “Throwing Stones,” de John Perry Barlow e Bob Weir

O comunicado de Barlow escrito no Brasil deixa muito claro que ele estava, de fato, se divertindo agora.

Finalmente falei com ele no Rio de Janeiro, no telefone celular, enquanto ele se dirigia ao aeroporto para voltar aos Estados Unidos. “Estou deixando a zona livre de Bush” lamentou Barlow, imaginando como poderia se ajustar ao clima de guerra na América do Norte e seu estado de êxtase alimentado pela mídia.

Barlow tomou o avião e, lá, acima do Caribe, escreveu outro comunicado.

Desta vez, de algum lugar no que já foi um planeta chamado Nova York, ele confessa: “Não estou me divertindo agora”.

Barlow é um homem apaixonado. Ele está apaixonado pelo Brasil. Não acho que ele consiga se manter distante por muito tempo.

Sua experiência de retorno aos Estados Unidos evoca imagens do ônibus espacial Columbia explodindo ao entrar na atmosfera. Barlow escreve de uma forma eloqüente, que muitas vezes reflete meus próprios sentimentos, das vezes – nestes 7 anos em que vivo ao Sul de suas fronteiras – em que tive que retornar ao meu país, um lugar que já foi uma democracia e que hoje está na mão de ladrões, “monges do medo”, tiranos da mídia, experts em fraude eleitoral e de uma lavagem cerebral techno.

Ao iniciar o projeto trilingue com o “Narco News Brasil”, o seu periódico intercontinental online quer mostrar aos nossos leitores, principalmente os de língua inglesa, como a sociedade brasileira é diferente e única; não há nada nos Estados Unidos que possa servir de comparação. Exceto talvez as últimas reflexões deste poeta-guerreiro e amante da liberdade John Perry Barlow…Talvez elas possam ajudá-lo, caro leitor, a entender que as coisas neste hemisfério não são como a Mídia Comercial mostra…O seguinte ensaio é composto de trechos dos recentes comunicados de Barlow, àqueles, como ele descreve, “que pagariam sua fiança na cadeia”.

São cartas extremamente pessoais, mas com conteúdo político. São cartas de amor….Amor à sociedade, à terra, às massas….E isto faz com que estas palavras se transformem em uma forma de Jornalismo Autêntico.

De algum lugar neste país chamado América,

Al Giordano

As Cartas de Barlow…

22 de fevereiro, Nova York:

“O Brasil estava me chamando”

O silêncio dos Spams

Ok.

De novo, começo a receber mensagens questionando sobre meu estado de saúde ou a possibilidade de ter sido excluído da minha lista. É estranhamente encorajador assumir que, se eu não estou por aí enviando spams, algo deve estar errado.

Esta preocupação parece ser fundada nos recentes acontecimentos. Até agora, li cerca de dez versões distintas do seguinte: “Por que você está tão quieto? Com certeza você tem algo a dizer sobre o que está acontecendo no momento…?”

Bem, na verdade, não: Não exatamente. Estou sobrecarregado pela violência há semanas. Estou achando difícil me expressar nestes dias com algo além de gestos e cuspes. Atualmente tenho ficado tão mudo quanto o Congresso.

(Na verdade, não foram todos no Congresso que perderam suas vozes. O senador Robert Byrd recentemente fez um discurso, já histórico, para ganhar atenção da mídia, mas, que contém a seguinte verdade nua e crua: “Devo questionar a sanidade de qualquer presidente que diga que, um ataque militar maciço e não-provocado a uma nação cuja população infantil ultrapassa os 50%, é compatível com os mais altos padrões morais do nosso país’”.)

Claro que qualquer um pode imaginar que não há propósito em se dizer algo.

Provavelmente saberemos logo.

E aí, espero estar dançando no Brasil, longe deste coração das trevas e mais perto do coração em si.

O Ministro Gil e o doce Brasil

Mais ou menos no último ano, tive uma crescente intuição de que o Brasil estava me chamando. Claro que, em um sentido, o Brasil está sempre chamando aqueles que amam a música, a dança, os prazeres e os corações abertos. Mas parecia algo mais certeiro que isso. Com freqüência, me via no meio de brasileiros, que imediatamente se tornaram peças importantes na minha vida. Foi sendo alimentado nos meus sonhos.

Perto do último outono, decidi que era hora de voltar ao Brasil, e comecei a procurar um pretexto, uma vez que raramente vou a qualquer parte sem o que pareça ser um motivo, e geralmente, com uma passagem aérea já paga. Na madrugada do Ano Novo, minha voz interna estava murmurando tanto o suave português, que eu tive que concluir que seria forçado a ir até lá, simplesmente porque eu queria, e pagando do meu próprio bolso.

Contudo, no começo de janeiro, recebi um telefonema do meu velho amigo Julian Dibbell querendo saber se eu gostaria de me encontrar com o recém escolhido Ministro da Cultura do Brasil. Estava indo a Cannes na próxima semana para falar em uma conferência da indústria musical chamada Midem. (É uma verdadeira Feira de Negócios dos morto-vivos, mas deixem isso para lá...)

Aparentemente, o Ministro, um músico e herói político chamado Gilberto Gil, havia lido alguns de meus escritos sobre a economia da expressão, viu que eu estaria no Midem, onde ele também estaria, e queria saber se poderíamos nos encontrar para conversar.

Agora tenho vergonha de confessar que, quando Julian me telefonou, sabia nada ou quase nada sobre este homem memorável ou seu trabalho memorável ou sua vida memorável. Ainda, ele era brasileiro, o que conta pontos, e membro do gabinete do novo governo do Presidente Lula, o que também conta pontos a favor. Disse a Julian que teria o maior prazer em conversar com ele.

Após alguns dias me vi sentado no bar do Hotel Majestic em Cannes, cercado de figuras da indústria musical tiradas de “Medo e Delírio em Las Vegas”, esperando a chegada de uma comitiva oficial. Quando Gil apareceu, o reconheci imediatamente, mas não porque fez uma entrada triunfal. Aliás, o mais notável nele é que parecia a pessoa menos metida a importante do recinto. Isto, e um tipo de luz…

Um homem negro com dreads curtos, Gil chegou sozinho e estava vestido casualmente. Não tinha visto foto alguma dele, mas senti que o conhecia imediatamente. Aliás, senti como se o conhecesse desde sempre. Se Gilberto Gil fosse uma mulher, diria que foi amor à primeira vista.

Conversamos durante uma hora e meia, raramente deixando de nos olharmos nos olhos. Ele me pareceu uma versão altamente melhorada de mim mesmo, uma espécie de Barlow brasileiro, negro, mais talentoso, sábio e bem-sucedido, mas sem o peso de nenhum dos meus vícios.

Descobrimos em comum muitas coisas importantes. Que a música – aliás, toda a criação humana – é um ecossistema que merece mais reconhecimento do que é dado. Admiramos o trabalho de Frank Zappa, André Malreaux, Bob Marley, Pink Floyd, e Teilhard de Chardin (entre muitos outros, ainda mais obscuros). Acreditamos que há Um Amor. Acreditamos que medo é o único empecilho. E que a economia da criatividade deve ser muito diferente da economia da manufatura.

Acreditamos que há um grande conflito acontecendo entre grandes instituições, mais diretamente entre as corporações e os seres humanos. Acreditamos que chegou o momento dos seres humanos encontrarem formas de influenciar o comportamento destas criaturas globais para que elas sirvam também aos interesses humanos. Acreditamos que, assim como os Estados Unidos tornaram-se a capital do Leviatã, o Brasil pode se transformar na capital daquilo que é simples e humano.

Acreditamos que há mais razões para o otimismo do que nunca. Acreditamos, assim como Emerson, que, quando escurece como agora, fica mais fácil ver as estrelas.

Acreditamos em muitas coisas comuns, incluindo algumas que acho até que nunca discuti com outras pessoas. Estávamos ambos interessados em estender a conversa. Ele quis saber quando eu poderia ir ao Brasil e eu disse a ele que tentaria livrar minha agenda para março.

Gil levou uma vida incrível. Amo sua música, agora que estou me familiarizando com ela, que traz consigo uma enorme variedade de formas e tradições musicais. No Brasil, agora descubro, que ele é o Pelé da música. Criou melodias e letras com muita gente, indo de Jimmy Cliff a Incredible String Band.

Ele também foi dissidente político e ativista. Junto ao seu melhor amigo, Caetano Veloso (também astro da música), foi preso e exilado pelos generais no final da década de 60. Ele tem se mantido incansável na defesa contra a opressão mas não é da esquerda convencional, assim como eu.

Gil é altamente espiritual, embora não seja religioso no sentido comum. Ele é um intelectual sem o lixo retórico pós-moderno, que transformou o discurso aprendido em nossa geração em algo tão cansativo. Ele é Marx sem Lênin. (Ou talvez com Lennon). Ele é Gandhi com uma guitarra. É um cara muito legal.

Devido a tudo isso, fiquei encantado ao receber um convite cerca de duas semanas atrás para ir ao Brasil passar dez dias viajando pelo país, na época do Carnaval, com Gil e o ex-ministro da Cultura francês Jack Lang, este último, também uma figura muito interessante.

Não consigo imaginar uma forma melhor de escapar deste inverno do descontentamento. Agora estou em Nova York tentando colocar as coisas em dia para o que pode ser uma turnê de verão razoavelmente longa. Minha passagem de volta está marcada para o dia 13 de março, mas não preciso estar de volta aos Estados Unidos até a segunda metade do mês.

Sinto-me como se estivesse mergulhando na próxima fase da minha vida. Estou cheio de vida, agradecido e um pouco apreensivo.

Espero que vocês recebam mais notícias minhas com o desenrolar desta aventura.

Luz e esperança,

Barlow

24 de março, Lençóis, Brasil:

“A guerra começou”

Contemplando a guerra
em uma terra de paz

Estava no coração do Brasil quando recebi a notícia.
Estava em uma cidadezinha antiga mina de diamantes chamada Lençóis. Fica em uma parte remota do Estado da Bahia chamada Chapada Diamantina, que se assemelharia ao Monument Valley se as montanhas e escarpas no Sul de Utah surgissem do tapete de floresta amazônica.

Estive completamente longe do resto do mundo por três dias no International Rainbow Gathering (Encontro da Família do Arco-íris), realizado ainda mais adiante na Chapada, a oito horas de péssimas estradas de Lençóis.

Mas, ainda que estivesse no centro de São Paulo, os acontecimentos em Bagdá estariam distantes. O Brasil parece um mundo flutuante, um universo paralelo de tamanho e densidade cultural tão significativos que pouco entra ou escapa de seu campo gravitacional. Está acostumado a lidar com a loucura do Norte com indiferença, a seguir na busca de suas próprias questões, já tão profundamente complexas.

O Brasil é a maior charada do mundo. E é, aos que a decifram, suficientemente envolvente para transformar até mesmo estas considerações externas sobre a possibilidade do Armagedom em algo quase irrelevante.

Além disso, parece que há uma tendência natural à paz, que caminha junto à sua história e que, sabiamente nota, que até mesmo a oposição ao comportamento belicoso das culturas menos iluminadas reforça o ciclone da guerra. O Brasil não estuda mais a guerra. O único conflito organizado no Brasil deve provavelmente envolver uma arma não mais letal que uma bola de futebol.

As ruas de pedregulho de Lençóis estavam se enchendo com o passeio noturno da bela juventude de pele dourada quando meu telefone celular tocou. “A guerra começou,” disse Lotte, minha ex, em uma voz tão crua quanto uma Strindberg.

Imediatamente, corri para recolher toda a informação possível, contudo não havia nada. A pousada onde estava hospedado não tinha telefone, ou seja, não podia conectar meu computador à Internet. Encontrei uma televisão, o que não é muito difícil no Brasil, mas é claro que não havia programação alguma em inglês. Porque um canal perderia tempo com a CNN? Ninguém aqui fala inglês e, certamente, não precisam de mais propaganda alucinógena vinda do Norte.

As notícias que consegui encontrar em português pareciam falar do início da agressão norte-americana ao Iraque como se fosse outra notícia qualquer. Não era nada que valesse sacrificar a transmissão das novelas da noite. Fui dormir ainda mais confuso que o normal.

Ainda tinha outra viagem de oito horas até Salvador no dia seguinte. Busquei constantemente nas rádios as notícias e ouvi muito pouco. Ouvi o Presidente Lula da Silva fazer seu pronunciamento sobre o assunto, que depois descobri continha uma fala perfeitamente razoável: “Todos queremos que o Iraque deixe de ter armas atômicas ou de destruição em massa,” disse ele, “mas isto não dá o direito dos Estados Unidos decidirem o que é certo ou errado para o mundo.”

Agora estou no Rio. Sei de tudo o que a CNN e o site do New York Times permitem saber, o que parece que inclui também algumas inverdades.

Não é muito prático, se você considera as conseqüências maiores.

Mesmo se a vitória for rápida e indolor, teremos ferido, talvez mortalmente, a capacidade de busca pela paz da Organização das Nações Unidas.

Teremos costurado a discórdia dentro da União Européia e estragado as relações com os nossos mais importantes aliados, França e Alemanha.

Teremos destruído o que resta de apoio popular aos governos da Jordânia, Egito e Arábia Saudita, nosso três aliados mais importantes do Oriente Médio.

Teremos estabelecido – e não somente para nós – a legitimidade do ataque preventivo.

Teremos radicalizado meio bilhão de jovens muçulmanos, transformando-o um monstro em mártir diante de seus olhos.

Teremos nos instalado como comandantes de uma colônia energética que não será fácil de governar, dada a amarga – e para nós, misteriosa – divisão existente entre xiitas, sunitas e curdos.

Teremos nos colocado em um ponto de atrito com a Turquia, antes uma poderosa aliada.

Teremos falido a fragilizada economia norte-americana.

Teremos criado instabilidade de longo prazo nos mercados financeiros e energéticos mundiais.

Teremos desvalorizado a autoridade moral da moeda norte-americana a um ponto de extinção. Teremos transformado os Estados Unidos, por muito tempo uma luz de esperança para o mundo, no país mais temido e odiado do planeta. Teremos trocado nossa capacidade nacional de inspiração em mera capacidade de intimidação.

E pra quê?

Enquanto isso, a vida segue gloriosa no Brasil. Quando no Norte, neste sábado, os protestos contra a guerra aconteceram, o Brasil estava primordialmente preocupado com o jogo entre São Paulo e Corinthians. Aliás, o único protesto visível anti-guerra foram algumas faixas estendidas na arquibancada do jogo de futebol. (Embora Michael Moore tenha recebido um grande apoio pela fala contra Bush no Oscar…)

Como esperado, tenho muito o que contar daqui, onde completei agora um mês totalmente transformador. Até agora, estive me divertindo muito, envolvido em aventuras, para gastar minhas energias descodificando-as em informação.

Tive com certeza o melhor curso de curta duração sobre cultura brasileira que alguém poderia receber. Somente a experiência do Carnaval – em Salvador, Recife, Olinda, Rio e São Paulo – na companhia imediata e contínua de Gilberto Gil já seria muito. Além de ser o Ministro da Cultura, Gil, de certa forma, é o Brasil. Em sua música, seu coração aberto, seu doce otimismo melancólico, sua energia, ele representa tudo o que este lugar ama sobre si.

Se Gilberto Gil fosse membro do nosso gabinete – se fôssemos o tipo de país que fizesse dele um membro do gabinete – estaríamos defendendo a paz e não a guerra e o mundo seria muito mais parecido com o Brasil. Só podemos esperar que um dia isto aconteça.

Paz e Amor,

Barlow

30 de março, no vôo de volta para casa:

“Será que conseguirei permanecer
nos Estados Unidos?”

Exilado para os Estados Unidos

Agora estou sobre a Amazônia, partindo para o Norte. Após 5 semanas acomodado no seio do Brasil – mais tempo do que passei em qualquer outro país, incluindo o meu, em um grande período – estou retornando ao Ventre da Besta.

Não há como expressar minha apreensão em deixar para trás a cultura emocionalmente mais saudável do planeta e retornar à mais patológica. Posso apenas imaginar como deve ter se tornado ainda mais patológica após ter sido “soterrada” pela CNN e pela guerra durante dez dias. Ou como o clima será ruim com a continuação da guerra e as pessoas virando-se umas contra as outras.

No Brasil, por outro lado, estão tentando se livrar disso o máximo possível. Inclusive, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro declarou ontem que George Bush é persona non grata na cidade. Mesmo que isto tenha praticamente o mesmo efeito que Mill Valley na Califórnia ter se declarado área livre de energia nuclear, entendo sua iniciativa. Foi bom estar em uma área livre de George Bush. Mas agora estou prestes a retornar à condição social na qual praticamente todos os aspectos da vida foram contaminados pelos tormentos deste homem, seja pessoais, culturais ou políticos.

E também deixo a companhia de alguém, que em sua essência, é anti-George Bush: Gilberto Gil. Passei a maior parte destas cinco semanas com Gil (como ele é conhecido no Brasil) o que só fez aumentar minha admiração e afeto por ele. Isto não é qualquer coisa, uma vez que, se vocês se recordam, fiquei muito impressionado com ele quando nos conhecemos.

Sinto que Gil brilha com a versão aperfeiçoada da minha própria alma e corporifica todas as virtudes que eu procurei manifestar em mim. Aprendi muito com ele sobre como ser humano encantador. Se ao menos eu puder incorporar seus exemplos ao meu jeito de levar as coisas neste mundo material…

Ele pode ter nascido deste jeito, mas Gil sabe como ser amor, dando-o de modo sincero e livre às massas que estão sempre ao seu redor, e mais importante, recebendo-o delas com humildade, acreditando que merece tanto deles quanto eles merecem dele.

Em uma parada, durante o Carnaval, em um bairro extremamente pobre do Recife, o povo viu Gil e muitos começaram a chorar de emoção. Mais tarde, eu disse, “Você tem um efeito maravilhoso sobre as pessoas. Muitos dos que estavam lá choraram ao te ver.”

“Bem, eu também chorei,” Gil sorriu, e eu pude ver a marca de uma lágrima em seu rosto.

Os brasileiros amam Gilberto Gil. Universalmente. Não o amam mitologicamente, como os fãs amavam Elvis Presley, ou Jerry Garcia, ou John Kennedy, Jr. ou um sem número de outras mega-celebridades. Eles não o amam simplesmente por sua música tão cheia de lirismo, embora a maioria dos brasileiros é capaz de cantar grande parte de seu repertório e o faz. Certamente não o amam porque ele é agora o Capitão de sua cultura, embora amem que ele desempenhe este papel. Os brasileiros amam Gil pelo motivo certo. Sabem que o que e quem ele é, e o amam pelo que é. Eu o amo também. Sinto-me melhor em relação à minha espécie sabendo que ocasionalmente produzimos um Gilberto Gil.

Mas agora estou voando para longe de sua companhia encorajadora para uma cultura que, temo eu, seja incapaz de nutrir um coração como o dele, ou pior, puniria seu comportamento desarmado. Espero seguir seu exemplo, veremos o que será de mim agora. Temo que ser dedicadamente bom em um país que se tornou ruim como o nosso, pode exigir mais coragem e fé do que eu possa manter. Mas se eu tiver que ser exilado nos Estados Unidos, darei o melhor de mim para ser um missionário brasileiro, espalhando generosidade, esperança e a alma do samba. Deseje-me sorte.

Não falo português. Isto é um problema. Estar restrito ao inglês no Brasil pode ser como estar mudo. O país é tão monolínguístico quanto os Estados Unidos. Inclusive, iria mais longe ao especular que a porcentagem de norte-americanos que se comunica em português é maior que a de brasileiros que falam inglês.

Felizmente, a expressão corporal dos brasileiros é eloqüente. E eles são quase telepáticos de tanta empatia. Tanto quanto amo o som do português brasileiro, adorei ouvi-lo ser falado. Eles estão constantemente contando longas histórias elaboradas ou presenteando com frases curtas sobre a natureza da vida que são poéticas, filosóficas e espiritualmente complexas. Sei disso apesar de entender uma em cada dez palavras ditas. Se for passar mais tempo do resto da minha vida no Brasil – o que pretendo fazer – terei que aprender o idioma. O fato é que, a língua cuja sonoridade eu mais gosto poderia ao menos facilitar seu aprendizado um pouco.

Do Rio, fui a Salvador, na Bahia, a cidade que para muitos brasileiros é a capital do Carnaval. É uma cidade muito mais africana que o Rio, com tudo o que isto implica. É um lugar ótimo para se treinar a paciência. Nada acontece muito rápido. Mas dançam melhor em Salvador e são mais sexies, o vigor híbrido contribuiu e muito. Há também energias misteriosas que podem ser sentidas surgindo lá, provavelmente conectadas com o Candomblé, a religião local criada a partir do Catolicismo e das religiões Ioruba, da Nigéria. São as mesmas crenças que se transformaram no Voodoo no Haiti. Candomblé é menos assustadora que isso, mas ainda mantém uma relação confortável com A Sombra. Você não vai querer se meter com seus devotos. Mas você não os atrapalharia de todas formas. Eles são muito legais para isso.

Cada cidade do Brasil tem um Carnaval diferente, como eu veria pela amostra preparada por Gil para mim e também para Jack e Monique Lang (Jack foi o Ministro da Cultura francês por cerca de 15 anos e é, apesar disso, um cara agradável e divertido.)

A versão soteropolitana (de Salvador) foi a minha favorita por ser a mais participatória e cheia de energia. O Carnaval na Bahia é com certeza a melhor e maior festa deste planeta. Umas duas milhões de pessoas chegam de todas as partes do Brasil, para dançarem 10 horas por dia durante uma semana, descartando seus poucos constrangimentos sexuais e curtindo muito um ao outro. Cachaça, um destilado de cana de açúcar, que altera a consciência, corre feito água. (Mas, é impressionante, que apesar de ser forte e do fato de que todo mundo a toma constantemente, nunca vi alguém caindo de bêbado e só presenciei duas brigas.)

A figura central do Carnaval soteropolitano é o “trio elétrico”, um caminhão transformado em um gigantesco palco móvel, cheio de geradores, caixas de som ensurdecedoras e iluminação para os shows. A banda fica no teto do caminhão, que geralmente está cheio de gente, entre eles, os distintos convidados, principalmente estrelas de novelas e outros personagens culturais. Isto vai por um trecho de 8 quilômetros de uma avenida à beira-mar, seguido por cerca de meio milhão de pessoas dançando em uma combinação paradoxal de abandono e unidade.

(O nome trio elétrico vem da primeira aparição deles na década de 60, quando o inventor brasileiro da guitarra elétrica alugou um caminhão e cruzou a avenida tocando acompanhado de um baixo elétrico , uma bateria e um PA. Hoje em dia todas as bandas que tocam em trios elétricos são maiores que isso. A banda do trio de Gilberto Gil, que inclui 4 de seus filhos e montes de convidados, gira em torno de 12, embora eu nunca tenha contado de verdade.)

Alguns dos trios são cercados por um batalhão de dançarinos usando camisetas identificatórias. Estes grupos são chamados de blocos, e são uma espécie de clube organizado para celebrar o Carnaval juntos. Em Recife ou Olinda, um bloco pode ser liderado por uma pequena bandinha e apresentar danças tradicionais como o frevo. No Rio, são escolas de samba com 5 ou 6 mil integrantes usando fantasias elaboradas e desfilando em carros alegóricos em uma visão geral que combina Las Vegas, Carmen Miranda, Burning Man, LSD de qualidade e um filme de Terry Gilliam.

Tornar-se membro de um destes blocos pode ser caro, em torno de R$ 700,00. Pelo fato do salário mínimo brasileiro ser próximo de R$ 200,00 ao mês, a camiseta torna-se algo realmente caro. De acordo com os princípios includentes de Gil, o Trio dele não tem bloco, o que significa que qualquer um pode dançar ao seu redor. O que torna a área próxima a ele, a zona mais energizada que já vi em um lugar que não tenha seu próprio sistema solar. Combustão espontânea parecia uma possibilidade factível.

O eixo de toda esta energia era Gil, que dominou a arte de juntar os fluxos, apliá-los com suas próprias lentes espirituais e jogá-lo de volta ao vento. Ele está com 61 anos, mas tocou por 5 horas e meia com nota 11 numa escala de 1 a 10, sem ao menos tomar um fôlego nem reduzir o ritmo. Participei das 3 noites em que seu trio saiu, as vezes no chão, as vezes no topo (onde há mais oxigênio). Apesar da velocidade, a banda dele estava mais afinada que o relógio de Deus. Foi um prazer imenso vê-los curtindo, um ao outro, e o presente sagrado que é a música.

Em um dado momento, ele me perguntou, de modo meio retórico, se estava me divertindo. Parei para pensar e percebi que estava me divertindo tanto quanto é possível. E eu sou um veterano nesta história de me divertir.

Pausa para a Re-entrada…
nos Estados Unidos…

Não estou me divertindo agora.

Logo após ter escrito estas palavras acima – perto de Cuba – cochilei. Quando acordei, estava nos Estados Unidos. É a sensação de acordar de um sonho lindo em um pesadelo. Os funcionários da Alfândega pareciam todos tirados do “Brazil”, o filme, não o país. Os rifles automáticos estão por toda parte.

Olhar nos olhos é impossível aqui e acabo de passar cinco semanas em condições onde olhar nos olhos é tão corriqueiro e livre que não há como escapar. (Os únicos brasileiros que evitam este tipo de olhar são os trombadinhas – o que os torna bem inofensivos a quem estiver atento – e alguns, não todos, os policiais militares.)

Cheguei a Nova York às 7:30 da manhã e levei mais uma hora para chegar à cidade já que os policiais haviam, sem propósito algum, diminuído o acesso à Ponte Williamsburg a uma única faixa.

Levei mais umas duas horas me recompondo em meu apartament, e tive como consolo a visita da minha querida amiga Simone Banos e de sua filha Emma Victoria. Ajudei no nascimento de Emma Victoria. Ela é minha filha postiça e tem sido uma presença luminosa desde sua chegada há 11 meses. Elas foram a única coisa que fizeram deste, um dia tolerável.

No momento, estou voando, descendo a Costa Leste até a Disneilândia, o anti-Brasil, onde passarei os próximos três dias tentando edificar e inspirar a American Society of Association Executives. A vida é justa, e eu já me diverti muito, mas com certeza a coisa não precisaria ser tão justa assim.

O processo envolvendo meu embarque nesta aeronave me fez questionar seriamente se eu serei capaz de permanecer nos Estados Unidos.

Talvez eu precise só de um reajuste. Mas estive viajando pelo Brasil todo, um país livre, nas últimas cinco semanas e muito raramente tive que apresentar um documento. Minhas malas nunca foram abertas. Os detectores de metal que haviam, estavam programados para serem acionados na presença de pistolas e não traços na corrente sangüínea, e todos no aeroporto eram simpáticos.

Não é assim no Aeroporto de Laguardia, em Nova York.

Apesar do fato de ser um passageiro de um milhão de milhas da Delta, a funcionária do balcão me tratou como se eu estivesse armado e fosse perigoso. Pior, assim que cheguei à sala de segurança, descobri que ela havia me marcado para o tratamento especial. Passei os próximos 45 minutos assistindo três das criaturas menos favorecidas de Deus vasculharem minha bagagem com todo o descuido. Não eram muito espertos, mas com certeza eram hostis. E extremamente paranóicos.

“O que é isso, senhor?”

“É uma caneta. Aqui, deixa eu te mostrar.”

“E isto?”

“Isto é a bateria do meu laptop. Olhe, tem a marca da Apple.”

“O que você quer dizer com isso?”

“Bem, eu, hmmm….”

“O senhor poderia me dizer por que há três isqueiros na sua mala?”

“Não sabia que tinha qualquer isqueiro.” Eu tampouco sabia.

E assim por diante. Não é brincadeira. Enquanto isso, eles fizeram a detecção de nitrato, inclusive no meu cartão de embarque. Sabia que nem a frivolidade muito menos a irritação seriam bem-vindas, então lutei para me manter perfeitamente calmo. Não sentia esta combinação de tédio e terror desde uma ocasião, há 35 anos, quando fui detido, por uma hora, por policiais armados da Alemanha Oriental, enquanto seu comandante removia todos os traços politicamente inapropriados dos meus mapas usando um lindo par de tesouras de prata.

Provavelmente entrarei no clima, mas agora não acho que consigo lidar com a realidade contemporânea dos Estados Unidos. Mesmo fazendo pouco das freqüentes humilhações sofridas enquanto viajando, acho que será muito difícil contemplar todos estes rostos norte-americanos furtivos, sabendo que em 3 a cada 4 deles carregam o apoio à aventura criminosa do nosso Presidente no Iraque. E além disso, há os novos super sinistros. Fiquei tão acostumado aos sorrisos. Mas não detectei um único em Laguardia. Fiquei sentindo que toda esta seriedade acompanhava uma disposição em ver como um mal necessário que estamos utilizando napalm – uma arma de destruição em massa pelos meus padrões – em grupos de iraquianos.

Será que tenho amor suficiente para perdoar meus conterrâneos? Será que tenho sabedoria o suficiente para odiar os pecados e não aqueles que os cometem? Será que a presença deste horror irá simplesmente me derrotar?

Tenho que tomar cuidado para não transformar Gil em um guru. Ele odiaria isto. Contudo, me pego pensando como ele – que esteve preso e exilado como dissidente – reagiria diante desta tragédia. Acho que sei como.

Em um dado momento, estávamos passando por uma região extremamente pobre. “Gil” eu disse, “você tem um coração enorme. Como você lida com o sofrimento que isto deve te trazer?”

“Oh” respondeu ele, “Eu deixo estar. Faço tudo o que eu posso para mudar isto, mas em um certo ponto eu simplesmente deixo estar.”

Imagino se consigo fazer o mesmo. Até porque, parece que não há escolha.

Irei retomar esta aventura assim que tiver tempo.

Enquanto isso, tentarei ao máximo deixar que seja.

Com esperança oscilante,

Barlow

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