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Presidente Lula olhe para a experiência de seus conterrâneos!

O Nordeste saí atrás na Redução de Danos e dispara na frente com criatividade e apelo social


Por Adriana Veloso
Parte VII de uma série, reportado do Brasil

10 de abril 2003

Enquanto no sul e sudeste do país a Redução de Danos começou nos primeiros anos da década de 90, no nordeste, com exceção da Bahia, o trabalho de campo chegou por volta do ano 2000.

Marco Manso, ou simplesmente Marcão, é um dos primeiros redutores do país, e atual Presidente da Associação de Redução de Danos da Bahia. Ele lembra como os primeiros esforços realizados para dar seringas limpas a usuários de drogas injetáveis, impedindo assim a contaminação de doenças, devia ser discreto: “recolhíamos seringa em caixas de sapato, levávamos para casa para descartar no dia seguinte”.


Marcão e Paulinho
Foto D.R 2003 Al Giordano
E o aprendizado foi passado adiante na região. Sérvulo Paulo, ou simplesmente Paulinho, que hoje é Diretor Geral da Associação Cearense de Redutores de Danos, fez seu treinamento em Salvador, com Marcão, e voltou para Fortaleza para dar início, em 2001, à Redução de Danos no Ceará.

O jovem conta que o trabalho de campo em sua região começou a partir de um questionamento. “Será que a troca de seringas funcionará aqui?”, diz. Por isso conversaram com as pessoas sobre o uso e abuso de drogas, “com um trabalho de informação nas comunidades mais carentes de Fortaleza. Mostramos como se contrai algumas doenças muito comuns na região, como a hepatite”, conta.

A hepatite também é uma questão de saúde pública no Acre, estado de divisa com a Bolívia e o Peru, onde grande parte da população já esteve em contato com algum tipo da doença. Ricardo Carpaneda, da Rede Acreana de Redução de Danos, diz que “esse então é um problema que assusta mais o HIV”. O trabalho começou em 2001, com apoio da Associação Brasileira de Redutores de Danos – a ABORDA – realizando uma pesquisa de campo nas comunidades carentes onde os usuários de drogas encontravam-se. “Até então ninguém havia feito nada para saber como vive nosso povo, como eles poderiam ser atendidos”, explica.

As observações realizadas por estes redutores de danos mostraram que “no norte e nordeste não há um volume tão grande de usuários de cocaína injetável”, conta Ricardo. Foi a partir de então que o movimento de Redução de Danos se superou e deixou de estar somente atrelado à troca de seringas e, mesmo seguindo com essa importante ação, passou a ampliar sua área de atuação para outros públicos.

Em Recife o resultado foi semelhante. Marcílio Cavalcanti Lima, hoje coordenador geral da Associação de Usuários de Álcool e Outras Drogas de Pernambuco e também Coordenador da Rede Pernambucana de Redução de Danos, lembra que a partir de pesquisas de campo eles decidiram “então começar a fazer Redução de Danos também com outras drogas”.

Carência de Dados

A falta de dados na saúde pública, não somente entre os usuários de drogas, em todo o país é uma questão levantada por todos, do norte ao sul do Brasil. “Temos que desmascarar os dados fajutos que temos na saúde pública hoje. A Redução de Danos também quer tirar do anonimato o usuário de drogas”, afirma Ricardo.


Marcílio Cavalcanti
Foto D.R. 2003 Adriana Veloso
E o nordeste saí na ponta driblando essa carência. Paulinho conta que em Fortaleza “fechamos uma parceria com as universidades para realizar pesquisas com usuários de drogas”. Na Bahia, Marcão fala orgulhoso de que “hoje o programa de Redução Danos conta com estudantes da Universidade Federal da Bahia, que para se formarem têm que desenvolver uma atividade em campo”. Dessa forma, a Redução de Danos foi contemplada pela comunidade universitária assim como o teatro e a música. “Isso ajuda a desmistificar um pouco aquela história de que o usuário de droga é um bicho”, completa Marcão.

Em Fortaleza, após esse primeiro contato no campo, ou “quando já havia interação, compreensão mútua, de que não éramos doutores ou policiais”, como diz Paulinho, pode-se iniciar o contato mais direto com os usuários de drogas e suas comunidades.

A Associação de Usuários de Álcool e outras Drogas de Recife foi vanguarda. Marcílio, conta que “ficou muito claro que as pessoas quando estavam embriagadas ou viajadas não tinham muito critério na escolha dos parceiros e tinham dificuldade em negociar o uso da camisinha”.

Começando com a informação sobre o público que queria atender, o trabalho tornou-se mais coerente com a realidade. “Observamos que ao tratar a Redução de Danos do álcool da mesma forma que fazemos com a cocaína, com o crack e outras drogas ilícitas uma maior penetração foi possível com uma menor resistência por parte das autoridades locais”, explica Marcílio.

Polícia para quem precisa de polícia

A resistência política à Redução de Danos fica bem clara na história do começo do movimento de Redução de Danos em Santos. Mas até que ponto a repressão policial ao redutor de Danos já foi vencida?


Marcão Manso e Adalberto
Ferreira, de Recife
Foto D.R. 2003 Al Giordano
“A Redução de Danos cuida exatamente daquelas pessoas que a polícia está de encontro para prender, matar bater”, esclarece o experiente Marcão. “Uma das maiores dificuldades de início foi a polícia”, ressalta.

No nordeste, a Redução de Danos, onde ainda não está protegida pelas respectivas leis estaduais, é tolerada, até certo ponto, pelas autoridades locais. Por exemplo, “durante o carnaval realizamos a campanha Drogas: se usar não abuse”, lembra Marcílio, que ressalta que “a prefeitura de Recife se dispôs a fazer as faixas de Redução de Danos com relação ao álcool, mas a parte da campanha relacionada às drogas ilícitas ficou a cargo da Associação de Usuários”, conta.

Já a Bahia enfrenta uma situação mais grave. Marcão conta que “o crack é a maior dificuldade hoje, porque os usuários de drogas injetáveis passaram a utilizá-lo”. A unidade móvel de Salvador – sim, o carro do Projeto de Redução de Danos da Associação Baiana já se tornou referência – expandiu seu acesso nos últimos meses. Ainda assim, mesmo com o avanço da unidade móvel, hoje o programa de Redução de Danos de Salvador tem 5 mil cachimbos guardados sem ir para campo.

O receio por parte dos redutores é o mesmo de sempre. Ser enquadrado na lei como traficante. Marcão conta que “poderíamos muito bem colocar os cachimbos nas ruas, mas a preocupação é com os redutores que já foram presos diversas vezes. No meio da madrugada, quando o policial chega num mocó – locais em que os usuários ficam – e encontra alguém com 50 cachimbos, até o cara explicar que é redutor de danos já tomou muita porrada”, esclarece.

Por meio do compartilhamento do cachimbo doenças como, herpes, tuberculose, hepatite e o vírus HIV são transmitidas. “No ritual de uso do crack, a pessoa fica com feridas nos lábios e na gengiva. Isso é uma porta de entrada de doenças”, explica Marcão.

A Associação de Usuários de Álcool e Outras Drogas “ foi criada para funcionar como um sindicato”, explica Marcílio. A Associação está realizando um trabalho de campo numa área do Recife antigo, “onde há jovens usuários de drogas ilícitas”, completa. O trabalho de sensibilização inclui o esclarecimento de que ninguém pode ser preso sob o efeito de drogas. “O policial não pode te prender na medida em que você não está em condições de se submeter a um exame para constituir uma prova contra você”, explica Marcílio.

No Acre Ricardo conta que “temos uma boa articulação política e gostaria que fosse assim e todos os outros estados, que houvesse essa abertura até porque já é tempo da Redução de Danos ser tratada como política de saúde pública”.

Soluções criativas superando as dificuldades


Paulinho: a arte como um agente redutor de danos
Foto D.R. 2003 Al Giordano
E para combater a repressão nada mais apropriado que a arte e diplomacia. “Priorizamos a leveza, uma forma amena de trabalho com o outro. Assim arte torna-se agente redutora de Danos”, ensina Paulinho. Em Fortaleza, nas quatro comunidades onde atuam, os redutores de Danos são parceiros das Associações de Moradores, assim começaram a aplicar as técnicas de teatro de rua, fazines, hip hop, etc para impulsionar a organização social.

Ele conta que “contataram professoras aposentadas que queriam trabalhar voluntariamente”, como resultado saiu o material educativo “Corre Dentro”, que é “um trabalho artístico realizado pelos usuários e usuárias de drogas e elaborado com o conhecimento que adquirimos no campo sobre a Redução de Danos Sociais”, explica.

Para Paulinho, lidar com a esfera política e com as comunidades terapêuticas que trabalham com a abstinência faz parte de um processo. “Foi aterrorizante para as pessoas entenderem que a Redução de Danos é um complemento, e não uma substituição”, conta ele, que ainda esclarece que, “existe a estratégia de repressão ao uso de droga, a das clínicas terapêuticas para a abstinência e existe a estratégia de Redução de Danos”.

A diferença da abordagem dessas técnicas é que a Redução de Danos não trata da droga, mas da pessoa.

“Algo que a Redução de Danos deixa de lição, é que, independente do redutor trocar a seringa, ele troca informação, ele leva o carinho, o ouvido pro cara que nunca teve ninguém para dizer porque usa droga”, explica Ricardo.

Presidente Lula escute seus conterrâneos!

Líder sindical, assim como o presidente Lula, Marcílio percebe nesse quarto mês de governo “que o movimento dos técnicos e das ONGs está sendo insuficiente, porque nunca se dirigiram ao movimento organizado da classe trabalhadora para fazer essa discussão”.

Ricardo Carpaneda
Foto D.R. 2003 Al Giordano
Falta sensibilizar quem hoje está no poder, mas também “vamos discutir com a base dos deputados que usa drogas inclusive”, conta.

A mudança dessa política proibicionista de drogas está vindo de baixo, assim como escreveu nosso editor Alberto Giordano.

O movimento de Redução de Danos, diferentemente daquele das comunidades terapêuticas, é composto por “pessoas que mesmo sem uma formação na área de saúde, desenvolvem um excelente trabalho de fundamental importância para o estado”, diz Ricardo. “O governo talvez levaria muito mais tempo para formar profissionais para trabalhar com esse tipo de público, e a Redução de Danos veio dar esses métodos de bandeja”, continua.

A sociedade civil organizada está cuidando de seu povo, está preenchendo as lacunas de uma máquina de estado viciada em um modelo onde as oligarquias sempre detiveram o poder. O que se espera, nesse primeiro governo de esquerda da história do Brasil, é a sensibilidade de olhar para o próximo sem compaixão, mas com solidariedade de companheiros. Afinal de contas o representante máximo do poder nacional hoje vem das bases.

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