<i>"The Name of Our Country is América" - Simon Bolivar</i> The Narco News Bulletin<br><small>Reporting on the War on Drugs and Democracy from Latin America
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O marketing do mito da guerra das drogas

O império da mídia no sudeste precisa ser mais honesto


Por Leitores do Narco News
Parte VIII, reportado do Brasil

23 de abril 2003

De acordo com o que é mostrado na TV, o sudeste concentra no eixo Rio São Paulo o centro do Brasil.

Esse eixo, de acordo com a mídia comercial que emana dessas duas cidades, é onde o Brasil começa e termina: Muitas pessoas podem se assustar ao ler isso. Isso não é verdade. O Brasil é um país de tamanho continental, com muitas culturas, muitas tradições e povos originários de quase todo o mundo. Mas será que aqueles que vivem no sul sabem o que está acontecendo no Pará? Ou será que aqueles que vivem em Rondônia tem idéia do que acontece nas montanhas de Minas? Porque será que o Jornal Nacional só noticia o norte quando há a festa do Boi Bumba (festa folclórica do norte e nordeste do Brasil)?

A tradição do brasileiro é a novela das oito. Assim que o Jornal Nacional termina com uma boa notícia dada pelo sorridente e feliz casal Wiliam Bonner e Fátima Bernardes, é hora de mais uma história de amor impossível. As novelas tornaram-se vício e referência para todas as pessoas das mais diferentes classes sociais do país.

Menos mal que o programa “Malhação”, referência para alguns adolescentes, que mostra aquela classe rica com uma queda para o uso de anabolizantes, porque se importam única e exclusivamente com o corpo. Estes atores – bonitos e famosos – são o oposto daqueles “cara fraco, desdentado e feio”, como canta Caetano em “Partido Alto”- que pedem dinheiro ou comida nas ruas.


Adriano Mosimann e Neide “Lola” Santos
Foto D.R. 2003 Adriana Veloso
A Rede Globo é um “meio de comunicação poderosíssimo” como diz Adriano Mosimann, da Associação Catarinense de Redutores de Danos, a ACORDA. A Globo iniciou a cultura de cinco novelas diárias e assim passou décadas.

Mas o que isso tem a ver com drogas e com essa série de Redução de Danos?

Falar do sudeste onde estão as capitais Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Vitória – algumas das cidades mais ricas, populosas e violentas do país – sem falar da influência da TV Globo no imaginário coletivo do povo brasileiro, não é falar do Brasil.

A sociedade do espetáculo de Ipanema é o modelo para o resto do país. Seus artistas, restaurantes e os corpos malhados que andam por lá são o show da novela das oito, que passa depois do Jornal Nacional. A telinha ora mostra os imigrantes italianos em São Paulo, como em “Terra Nostra” ou “Esperança”, ora os cariocas como em “Mulheres Apaixonadas”. O eixo Rio São Paulo se alterna no horário nobre.

A mensagem da novela é o mundo ideal, a felicidade e perfeição dos “Chiques e Famosos”, como um comercial de margarina. A indústria cultural que produz os filmes de Hollywood se reproduz “na tela do plim plim”.

Acontece que no Rio há uma contradição. Aquela cantada pela carioca Fernanda Abreu em: “Rio 40 graus, purgatório da beleza e do mal”. Ao mesmo tempo em que há o belo – a cidade maravilhosa e seus corpos perfeitos – há o feio – a pobreza da exclusão social. O primeiro é mostrado na novela das oito como em “Mulheres Apaixonadas”. O segundo, a violência, é mostrada no Jornal Nacional.

O que acontece no Rio, é mais notícia na Globo e em outros veículos de comunicação do sudeste, do que a violência de qualquer outra cidade do país. Até a governadora carioca Rosinha Matheus, casada com o ex-governador do Rio e candidato à presidência Anthony Garotinho – que vira e mexe dava pitaco no governo estadual até que finalmente foi nomeado como o novo Secretário de Segurança do Rio, cargo que assume na próxima segunda – percebeu isso, “navegando na madrugada pelos sites dos jornais paulistas, que continham mais notícias da violência do Rio do que a deles própria”, como ela declarou ao Jornal do Brasil semana passada.

E a novela da Globo é tema na mesa de jantar. Quem é noveleiro se lembra de “Torre de Babel”, que foi ao ar no horário nobre, em 1998. “Nada melhor do que eliminar os marginais”, ironiza Marcelo Araújo, presidente da Associação Brasileira de Redutores de Danos, a ABORDA. Quem se recorda da tão adequada explosão do shopping? Aquela em que morreram as lésbicas chiques, ricas e bonitas, personagens de Christiane Torloni e de Sílvia Pfeifer, junto com o charmoso-drogado-problemático, interpretado por Marcelo Anthony…

Na época, foram poucos os que entenderam a escolha dos marketeiros da novela. Eliminar as lésbicas não estigmatizadas e o drogado feliz e charmoso para as pessoas da sala de jantar. Assim, os conservadores que apoiaram toda a lavagem cerebral, que teve início com a ditadura, não precisariam mais conviver nem mesmo com as imagens televisivas daqueles que eram diferentes, daqueles que tanto incomodam os privilegiados. A intolerância mata também na vida real, soube bem o índio Galdino, que foi assassinado pelos ricos rapazes de Brasília.

O tipo de comportamento condenado como “profano” pela sociedade, no caso o uso de drogas ilícitas ou uma opção sexual diferente, não agradaram a sociedade brasileira, – que inclui a classe dos que pagam pela propaganda no horário nobre, claro – que não conseguiu encarar o marginalizado – o usuário de drogas, a transexual, etc, nem mesmo na novela. Essas atitudes são consideradas “transgressões” – proibidas por que eles as consideram impuras – e, portanto na Época de “Torre de Babel”, a decisão foi escancarada:

“Vamos explodir todos os tabus!”

A Mídia e o usuário de drogas

O redutor de danos Adriano acha que “a mídia tem de parar de ser hipócrita, pois afinal grande parte de seus profissionais, apresentadores, jornalistas são usuários de drogas, mas não têm coragem de revelar isso.” E quando se declaram usuários de drogas ilícitas, como foi o caso da apresentadora Soninha, “são severamente punidos por assumir isso”, ressalta.

Em 2001 a apresentadora Sonia Francine, conhecida como Soninha, declarou à revista Época que às vezes fumava maconha. Ela comandava um programa para jovens na TV Cultura e foi demitida pela direção, que alegou que a emissora não poderia “permitir a manifestação pública, por seus funcionários e colaboradores, de práticas atentatórias às leis vigentes no país”.

No ano passado, a novela das oito, “O Clone”, teve grande repercussão, ao veicular depoimentos reais de usuários de drogas e de seu familiares. Adriano lembra “a novela foi narrada sob a perspectiva da recuperação, do tratamento do dependente de drogas, como se isso desse certo para todo mundo”. Segundo ele, houve a omissão de que “o tratamento é eficaz somente para 30% das pessoas que passam por ele. Então pergunta Adriano, o que fazer com os 70% de pessoas que não conseguem ter acesso ou o abandonam?”.
Marcelo Araújo, presidente da ABORDA, diz que “são poucos os espaços da mídia que têm uma atitude crítica e não caem no senso comum”. Ele lembra que a autora da novela, Glória Perez, “mandou e-mails para todos que trabalham com a questão da droga no país”, pedindo opiniões.

A perspectiva da redução de danos, que trabalha com a forma como o sujeito usa drogas, sejam elas lícitas, como o álcool e o cigarro, ou ilícitas como a maconha e a cocaína, não apareceu no ar. “Um redutor de danos de Salvador também sugeriu na época que “se discutisse o uso de álcool, já que um dos cenários da novela era um boteco onde todo mundo bebia”. Quem assistiu percebeu que a questão do álcool não foi abordada. “Pelo contrário, seu uso era estimulado”, lembra Marcelo.

Adriano acha que a mídia “deveria tentar conhecer melhor a questão da droga e da redução de danos, e não ficar multiplicando essa histeria, os tabus e o medo. Nossa grande luta é contra a ignorância”, completa.

Retratando o uso de drogas


Marcelo Araújo – Presidente da ABORDA
O Movimento de Redução de Danos organiza-se como rede, sendo articulado em treinamentos e encontros interestaduais pela Associação Brasileira de Redutores de Danos, a ABORDA. “Nosso trabalho não é somente executar a troca de seringas e outras ações de redução de danos. Também queremos mobilizar o público para que a sociedade reconheça os direitos dos usuários de drogas”, explica Marcelo.

Segundo ele, “a tendência hoje é culpar o usuário de drogas, como se ele fosse cúmplice do tráfico de drogas”. Num país em que o espetáculo da violência ocupa as páginas dos jornais diariamente, “esse é um aspecto curioso da distorção da realidade”, completa. O atual presidente da ABORDA se refere à “sociedade de consumo” – a sociedade capitalista que é baseada no consumo de produtos – para esclarecer a manipulação que vem sendo feita com os usuários de drogas. “A sociedade exige uma postura de consumidor responsável e solidário de pessoas a quem não são dadas alternativas para obter o produto que desejam consumir. Por que se você optar por plantar sua maconha e for preso, sua pena será ainda maior do que se você comprar do traficante”, diz.

A questão que permeia toda a opressão social, sofrida tanto pelo usuário quanto pelo comerciante de drogas, é a legislação que não distingue bem um do outro. Marcelo acha que “essa distinção só vai ser possível quando o questionamento sobre a natureza do tráfico começar. Teremos de reconhecer que algumas pessoas têm direito de comercializar com mais razoabilidade as drogas”, explica. Assim como a classe média é livre para comprar as suas drogas da felicidade – os Lexotans e os anti-depressivos, por exemplo -, adquiridas com receita médica, e assim como os usuários de álcool podem comprar sua droga nos botequins ou adegas, cada um deve ter preservado o seu direito de escolha.

Entretanto, o Brasil tem uma “opinião pública já muito demandante de uma ação rigorosa contra o comércio de drogas”, Marcelo continua. A exploração da violência e as campanhas antidrogas criaram o “mito dos maconheiros”, entre outros. Assim como as pessoas aprenderam que a ditadura de 1964 foi uma “revolução” e “comunista come criancinha”, também passaram pela lavagem cerebral de que a “droga mata”.

A mídia deveria questionar o papel que tem desempenhado nessas questões, o porquê do legal e do ilegal, os mitos que impedem uma visão clara dos problemas decorrentes da produção, comércio e consumo de drogas na sociedade contemporânea.

“Não há como discutir direitos dos usuários de drogas sem discutir como seu comércio será tolerado. Até porque as pessoas que realmente ganham dinheiro com isso não são enquadradas como traficantes. São os donos de bancos, das grandes corporações financeiras, juízes e políticos poderosos, etc. Essas pessoas não são consideradas traficantes, porque sua atuação ocorre no mercado financeiro”, completa Marcelo.

E até essa consciência atingir as páginas dos jornais, o rádio, a TV, toda essa mídia espetacular que desinforma, o público vai continuar a escutar as bobagens ditas pela governadora carioca Rosinha “Garotinho” Matheus, como quando ela declarou ao Jornal do Brasil “bandido num tem direito, tem mais é que mofar na cadeia”, e outros absurdos do gênero.

“Quanto mais o sistema encarcera o pequeno vendedor de drogas, mais aumenta a demanda por esse ‘profissional’”, esclarece Adriano, da Associação Catarinense de Redutores de Danos. Assim, “cada vez que isso ocorre, o mercado de trabalho da cocaína cresce mais e mais, já que a polícia está sempre prendendo o atravessador”.

O círculo vicioso causa um prejuízo cada vez maior ao Estado, pois os presídios superlotados já não comportam mais pessoas condenadas por pequeno varejo de drogas, ao mesmo tempo em que “quanto mais o consumidor de drogas ilícitas é punido, mais aumenta o medo e o tabu”, completa Adriano.

“Temos de mostrar o quanto essa atitude intolerante é fomentadora do estado de violência atual”, finaliza Marcelo.

A necessidade iminente é a de criar canais de discussão sobre o tema das drogas, para que “possa haver uma visão mais objetiva, isenta e informada sobre a questão”, ressalta Adriano. Mas quando essa discussão torna-se assunto da grande imprensa, a histeria coletiva do conservadorismo fala mais alto e clama por repressão.

Por outro lado, o movimento de redução de danos dá voz aos usuários de drogas para que suas experiências sejam conhecidas e eles possam apontar um caminho diferente desse modelo proibicionista que, como podemos ver, não está dando certo.

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