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A Construção do Inimigo na Guerra das Drogas

O traficante, o policial, a burguesia e a confusão da mídia


Por Karine Muller
Bolsista da Escola de Jornalismo Autêntico de Narco News

5 de junho 2003

Nos anos 80, o músico, compositor e poeta Cazuza encarnava o mito do herói romântico, urbano e solitário, o burguês expulso do convívio de seus pares, carregando nas costas o cadáver do sonho isepulto ( Meus heróis morreram de overdose / Meus inimigos estão no poder )....

Do “viva e deixe viver” do curtíssimo verão da anarquia brasileira pós tanga-do-Gabeira na praia de Ipanema, nosso saudoso rebelde desbocado transcrevia em suas letras um momento político de revolta contra o inimigo que estava no poder, no caso, de acordo com ele, a infeliz burguesia.

Quase 20 anos se passaram e, se ainda estivesse vivo, certamente Cazuza teria muito mais argumentos para demonstrar toda a sua rebeldia. O cenário político mudou pouco e as confusões aumentaram. Assistimos na mídia a acirrada construção do inimigo. Uma ora é a polícia, na outra é o traficante e agora também existe o usuário de drogas. No caso do traficante, a figura inimiga aparece sempre como preto, pobre ou “quase preto de tão pobre” (referência à letra de Caetano Veloso e Gilberto Gil na música Haiti), morador do Complexo do Alemão, do Turano, do Borel, da Providência ou qualquer outra favela carioca. No caso do usuário, sempre pode ser um burguês.
Uma das maiores preocupações do combate à violência decorrida do tráfico de drogas no Rio de Janeiro é definir o inimigo. Enquanto isso, o traficante do morro, invade universidades, manda fechar o comércio, incendeia ônibus, assalta gente na rua…desafia autoridades. Estabelece um comércio ilegal de drogas por toda a cidade. Ganha muito dinheiro e gasta tudo a seu bel prazer. O inimigo é eterno. Morre um, fica outro no lugar.

Como se não bastasse, muitos enxergam nele, uma outra ameaça à sociedade : o usuário de drogas. Este pertence à classe média, dá festas regradas à cocaína, êxtase, maconha etc. Um burguês, ou um rebelde burguês. Um tipo Cazuza caberia perfeitamente nesta descrição.

Estudantes de universidades privadas levam tiros em pleno campus e até o momento a polícia é o principal suspeito. O caso da estudante Luciana Gonçalves de Novaes, baleada no mes passado chamou tanto a atenção da mídia, que cabe aqui uma análise crua sobre o fato.

Todos os dias, morrem inocentes durante tiroteios entre a polícia e os traficantes. O problema é que já se tornou um fato banal para a cobertura da mídia. Além disso, estes inocentes, muitas vezes crianças, são pretos e pobres. Confundem-se com o inimigo. Há um estigma social de que quem mora nas comunidades é bandido por consequência. Ora, não precisamos ser Sociólogos ou Assistentes Sociais para sabermos que nas favelas há muita gente honesta que não quer o tráfico de drogas.

Ou, indo mais a fundo na questão o quanto é fácil sucumbir às ilusões de vida que o tráfico oferece, uma vez que vivemos num sistema que favorece a exclusão social a quem não pode consumir.

É preciso uma universitária ser baleada para que haja uma mobilização social maior em relação à violência decorrida do tráfico de drogas. Burguesa ou não, nos sentidos que esta palavra permite, o que aconteceu com esta moça representa a vulnerabilidade de todos nós no meio disto tudo. Ou seja, as pessoas se sentem muito mais diretamente atingidas e geram o espetáculo na mídia. Foi assim também durante o sequestro do ônibus 174, em junho de 2000, no bairro nobre do Jardim Botânico. O sequestrador, Sandro do Nascimento, era um ex-menino de rua, endividado e viciado. Um perfeito estereótipo do inimigo construído. Qualquer um de nós, moradores da cidade, poderíamos ter apanhado aquele ônibus no dia do lamentável acontecimento que vitimou a professora Geísa Firmo Gonçalves.

Mas, voltando à problemática do inimigo na mídia, tudo isto serve apenas para mais uma vez, emergirmos o verdadeiro motivo de toda a violência decorrida do tráfico de drogas, a ilegalidade. E o herói burguês Cazuza já cantava esta pedra na década de 80. Na opinião dele “a posição da lei é ridícula. Nunca se bebeu tanto nos Estados Unidos quanto no tempo da lei seca. Proibir interessa a quem? Pra máfia da Bolívia, da Colômbia, do Brasil. Porque é o próprio governo, da Bolívia, da Colômbia, do Brasil que lucra com isso. Por isso, marginalizam… No tempo de Freud, a cocaína era vendida em farmácia. Maconha, os índios fumaram a vida inteira. Então, interessa ao poder marginalizar, porque outros tipos de drogas são vendidos em qualquer farmácia. Maior de 21 anos, com receita médica, poderia comprar… E é isso que eu acho: droga tem que ser vendida em farmácia”.

O que a mídia não cobre, o que está nas entrelinhas é que há uma herança de poder amparada pelo narcotráfico. Poucos falam na legalização. Sustentam um inimigo confundido e muitas vezes equivocado, consequência deste poder soberano que não permite a legalização das drogas.
No próximo 1º de Julho será o Dia Nacional Anti-Drogas.

Mais uma vez vai haver grande mobilização da mídia em torno da velha questão do consumo de drogas. E os usuários que se cuidem…todos vão estar voltados contra ele. Vão ser realizadas campanhas e cursos em torno do “uso” de drogas.
O poder do narcotráfico precisa destes artifícios para se manter. Por que não promovem a legalização das drogas para acabar com o comércio ilegal que gera toda esta violência?

Fica aqui também um outro apelo do nosso inesquecível rebelde burguês : “Brasil ! Mostra a tua cara ! Quero ver quem paga pra gente ficar assim / Brasil, qual o teu negócio?/ O nome do teu sócio? / Confie em mim …”

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