<i>"The Name of Our Country is América" - Simon Bolivar</i> The Narco News Bulletin<br><small>Reporting on the War on Drugs and Democracy from Latin America
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Narco News Issue #29
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Perito estadunidense traz o “reefer madness” para o Brasil

Jornais de São Paulo afirmam que a maconha causa “insônia, náusea, dor muscular” e “perda de apetite”


Por Al Giordano
Especial para The Narco News Bulletin

20 de maio 2003

16 de maio de 2003, Rio de Janeiro Brasil: Na medida em que o país se move em direção a uma política de drogas mais humana e democrática, os interesses – liderados pelo lobby do “tratamento de drogas” – estão tentando desesperadamente fazer com que a lei volte à era do fogo. A tática utilizada por esses primatas da política de drogas vem em forma de falsas afirmações sobre a maconha em esforços de “tratar” os usuários.

Ainda que centenas de críticos da guerra das drogas tenham se encontrado no Rio de Janeiro no evento, co patrocinado pelo Narco News sexta feira passada, um defensor do “tratamento dos usuários de maconha” aliado ao governo estadunidense chegou em São Paulo para promover sua indústria: “Tratamento” para usuários de maconha.

Entre as claras falsas declarações feitas pela organização do Fórum intitulado “Avanços no tratamento de usuários de maconha” que ocorreu na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), estava de acordo com o jornal “O Estado de São Paulo”, que o uso de maconha causa “insônia, náusea, dor muscular, ansiedade, nervosismo, suor, diarréia, perda de apetite e intenso desejo de usar a droga”.

Essas afirmações bizarras já não colam mais nos Estados Unidos, onde foram praticadas durante anos pelos promotores da política proibicionista, mas que foram desmascaradas posteriormente em jornais médicos e por sérios profissionais de saúde. Na verdade, as afirmações feitas no Brasil essa semana de que o uso de maconha causa insônia, perda de apetite e dores musculares, são totalmente contrárias ao consenso de médicos, de pesquisadores e de oficiais de saúde dos Estados Unidos e de muitos outros lugares que prescrevem a maconha como uma medicina efetiva para aliviar a falta de apetite, a insônia e a dor muscular.

A verdade nua e crua – e a forma com que o lobby das clinicas terapêuticas está mentindo sobre ela no Brasil – faz com que o professor Robert Stephens do instituto Politécnico da Virgínia seja convidado especial no Fórum que ocorre em São Paulo (esse professor faz parte de um grupo que se chama “Projeto de tratamento de Maconha”), fato que deveria ser desprezado pelos que pagam impostos nos Estados Unidos e pela sociedade civil brasileira.
A matéria publicada na sexta feira no jornal “O Estado de São Paulo”, escrita por alguém que se chama Renato Lombardi, também promovia “a efetividade de um tratamento breve para usuários de maconha”, assim como “a primeira clinica especializada em dependentes de maconha”, clinica esta que, aparentemente, – de acordo com o jornal – está buscando maconheiros para dar-lhes “tratamento”.

Onde há fumaça há fatos

As afirmações feitas essa semana pelo lobby das clinicas de tratamento no Brasil foram rechaçadas vigorosamente por sérios jornais e profissionais de saúde nos Estados Unidos, Europa, Austrália e no resto do mundo, onde substancialmente se afirmou:

  • A maconha é reconhecida, em sérias práticas médicas, como um sedativo, não um estimulante, o que significa que ela induz e não impede o sono entre seus usuários.
  • A maconha é uma medicina efetiva contra náuseas, particularmente para pacientes de câncer que sofrem de náusea como conseqüência da quimioterapia ou da radioterapia, assim como para pacientes com AIDS que tomam remédios legais que induzem a náusea.
  • A maconha é uma medicina efetiva para combater o espasmo muscular, relaxando a dor muscular de pacientes que sofrem de diversas escleroses e sérias debilidades físicas.
  • A maconha é um calmante, não é uma droga que causa ansiedade ou fissura.
  • A maconha estimula o apetite (o que os maconheiros chamam de “larica”, é o fenômeno de apetite)

O Reefer Madness dos anos 30 – a desonesta campanha pública de filmes e jornalismo vendido para amedrontar a população estadunidense, que dizia que a maconha faria com que os negros e mexicanos estuprassem meninas brancas e difundiriam a marginalidade, como um prelúdio da lei que proibiu seu uso em 1937 – está sendo ressuscitada no Brasil como uma última jogada de desespero patrocinada pelos Estados Unidos para amedrontar e preocupar famílias que vivem abaixo da linha do equador e fazer com que elas estejam contra as reforma da política de drogas que ocorre.

Pior ainda, essa tática surreal do medo também está sendo usada para promover uma indústria – as clínicas de tratamento – e, particularmente, está promovendo os serviços de “tratamento para maconha”.

Qual o motivo, caro leitor, poderia alguém ter para afirmar exatamente o oposto dos fatos nesse momento histórico no Brasil?

Como diria o Homer Simpson: “dãã!”

A “simpsonatização” da guerra das drogas

Não foi um bom começo de século para nosso “especialista” que visita o Brasil, Robert Stephens, e sua campanha para forçar o “tratamento de usuários de maconha” nos Estados Unidos. Não é à toa que agora ele está fazendo com que o Brasil importe esse projeto. Talvez ele tenha achado que seria menos vaiado por aqui.

Robert Stephens foi co-autor de uma reportagem de 2002 publicada no Jornal da Associação Médica Estadunidense (JAMA em suas iniciais em inglês), intitulado “Cognitive functioning of long-term heavy cannabis users seeking treatment”. Até aí tudo bem, para o professor Stephens era um bom começo de careira ter algo publicado pelo prestigioso Jornal da Associação Médica Estadunidense… mas esperem….

Como observado pelo Semanário de Abuso de Drogas e Alcoolismo (Alcohol and Drug Abuse Weekly), o Jornal da Associação Médica Estadunidense recusou publicar outra reportagem de Stephens sobre o mesmo assunto:

“Com um editorial acompanhando o estudo, Harrison G. Pope, Jr., M.D., do Laboratório de Psiquiatria Biológica da Universidade de Harvard, que tem um hospital afiliado em Belmont, Mass., escreveu que os resultados daquela pesquisa precisavam ser comparados com outros. Ele disse que um estudo anterior não encontrou deficiências cognitivas em sete das oito neuropsicológicas áreas de habilidade de usuários de maconha.”

O Doutor Harrison de Harvard logo após apontou – no editorial do Jornal da Associação Médica Estadunidense – que Stephens “não havia levado em conta o fato de que algumas dessas pessoas deveriam sofrer de ansiedade e outras desordens depressivas, ou então, utilizavam outras drogas recomendadas por médicos que poderiam ter causado tal resultado”. Quarenta e sete por cento dos usuários de maconha do estudo possuíam uma história regular de consumo ou dependência de outras drogas, fato que não foi observando no estudo, disse o Dr. Harrison, de acordo com o Semanário de Abuso de Drogas e Alcoolismo (Alcoholism and Drug Abuse Weekly). “Dr. Harrison também disse que os pesquisadores não ajustaram o estudo para os gêneros e fizeram sua análise somente levando em conta parcialmente a questão da idade.”

Stephens e companhia escreveram cartas maldosas para o Jornal da Associação Médica Estadunidense rebatendo as criticas do Dr. Harrison, mas a “redução de danos” da verdade contra a mentira já havia prevenido a medicina estadunidense do veneno de Stephens. (Se o titânico projeto de tratamento de usuários de maconha de Stephens vai ser aceito pelo Jornal da Associação Médica Estadunidense tendo impacto sobre os próximos financiamentos do governo destinados ao Centro de Abuso de Substâncias – Esse departamento de Saúde e Serviços humanos dá, de acordo com o balanço da própria instituição, 1,4 bilhão de dólares por ano – está para ser visto. Perceba que o governo estadunidense permitiu que os fatos entrassem de uma forma vantajosa para ele na campanha de promoção da guerra das drogas).

Agora, o promotor do projeto de tratamento de usuários de maconha veio para o Brasil com sua campanha bizarra.

No dia 17 de maio de 2002 havia uma coluna no Seattle Times co-autorada por Roger A. Roffman, em que Stephens se baseou em uma figura mundialmente conhecida para seguir com sua campanha para colocar usuários de maconha em tratamento: Homer Simpson (Não caros leitores, Jayson Blair e Howell Raines não se juntaram a equipe do Narco News, não estamos inventando isso). A coluna de Stephens e Roffman tinha como título “Foi o Homer para a maconha” ? (“Did Homer Go to Pot?”).

Eles escreveram:

“Um recente episódio do desenho “Os Simpsons” colocou em questão os prós e os contras do uso de maconha e as experiências de Homer Simpson provêem um exemplo do que queremos dizer”.

Advertência: continuar lendo a prosa de Stephens pode causar, para alguns leitores, uma experiência alucinógena, provocando risadas incontroláveis. Não beba água ou qualquer outro tipo de líquido porque a bebida pode descer de seu nariz, molhando seu computador, causando um choque elétrico que pode danificar o disco rígido de seu computador.

Aqui, mais algumas frases do discurso escolar de Stephen, que extrapola a experiência de um personagem de desenho inexistente, Homer Simpson, para tirar conclusões sobre os maconheiros da vida real:

“Após se atacado por corvos nervosos, Homer recebeu a receita médica de maconha para a dor a os ferimentos nos olhos. Adicionalmente ao alívio da dor, Homer passou a admirar a música de uma forma diferente, assim como a comida e uma variedade de experiências sensoriais como resultado do uso de maconha. Ele estava mais relaxado e aproveitava a vida como nunca antes…”

“Homer ficou preocupado com o fato de estar fumando maconha e alguns efeitos não tão positivos começaram a surgir. Ele passava mais tempo com outros usuários do que com sua família. Seus amigos o achavam ‘desligado’ e perceberam mudanças em sua personalidade. Ainda assim, Homer continuou a trabalhar normalmente e de fato algumas pessoas gostavam mais dele”.

“Finalmente, os problemas com a memória e a atenção ficaram mais evidentes quando Homer e outros usuários esqueceram do dia e horário de uma manifestação pró-maconha um dia antes de uma importante votação sobre se o uso de maconha com finalidades médicas deveria ser permitido. Talvez um pouco exagerado, mas claramente há custos do uso de maconha parecidos com os que são experimentados no dia a dia de verdadeiros usuários”.

Stephens e Roffman nos dão uma dica de como são suas atitudes e estratégias sobre como discutir o uso de maconha:

“Não deveria nos surpreender o fato de que há um lado positivo no uso de maconha. Afinal de contas, porque as pessoas fumariam a erva? Também não nos surpreende que a educação sobre drogas geralmente dá ênfase nos efeitos negativos do uso. Algumas pessoas acreditam que falar sobre os efeitos positivos das drogas pode encorajar mais pessoas a começarem a usar a droga e leva-los aos efeitos negativos de longo prazo”.

Então eles convidam o leitor para consumir seu produto, algo chamado de “O check-up da maconha”, que sabemos é fundamentado pelo governo dos Estados Unidos:

“Vemos muitos usuários de maconha adultos que estão em conflito com os custos e benefícios do uso de maconha, assim como os prós e os contras de parar ou da redução do uso. Os vemos como participantes de uma pesquisa na Universidade de Washington, financiada pelo Instituto Nacional de Abuso de Drogas. Até hoje, 129 pessoas se juntaram ao projeto, chamado de ‘O check-up da maconha’.”

São 129 usuários de maconha… mais Homer Simpson… que Stephens cita para documentar suas afirmações que fizeram nascer a indústria do tratamento da maconha.
Enquanto isso, em um país chamado Brasil…

A caça de maconheiros

A mídia comercial tenta induzir a histeria pública sobre o uso de drogas nesse histórico momento do Brasil que surge como um filme noir, como a jornalista autêntica Karine Muller notificou nessas páginas em março. Agora Renato Lombardi do Estado de São Paulo adicionou seu comentário em serviço da desinformação.

“Brasil é um dos maiores consumidores de maconha” é a manchete. A chamada convida para o show: “Encontro reúne especialistas para discutir avanço no tratamento da droga”.

O Brasil, de fato, é um dos países onde há um grande número de maconheiros, ainda que esteja longe de atingir a marca do consumo dos Estado Unidos, mesmo com a indústria de tratamento do professor Stephens. Mas, diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil não exporta maconha para outros países. “O plantio de maconha no Brasil é consumido aqui mesmo”, observou o líder sindical Eraldo José de Souza, no fórum de sexta feira que aconteceu no Rio de Janeiro. (O fato de que o Brasil não exporta maconha, ou nenhuma outra droga para os Estados Unidos também levanta a questão: que diabos a Administração de Drogas estadunidense (DEA em inglês) está fazendo no Brasil? Essa questão vai ser levada em conta em uma próxima reportagem do Narco News.)

A matéria de Renato Lombardi publicada no Estado de São Paulo começa com uma única afirmação verdadeira – que o Brasil é o número dois do mundo em números de maconheiros – mas imediatamente depois se deteriora na mitologia. Nos dizem que, “uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) revela que o brasileiro está entre os maiores consumidores de maconha do mundo”. Nos dizem que outro estudo (os nomes e detalhes desse estudo não são citados) “revelou que 26%” de estudantes universitários de São Paulo usam maconha e que “no caso dos estudantes do 1.º e 2.º graus, 4% admitiram terem experimentado maconha pelo menos uma vez”.

E a matéria segue:

“Num trabalho preparado sobre a maconha, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), revela que a droga provoca dependência e causa danos à saúde. “A pessoa sente insônia, náusea, dores musculares, ansiedade, inquietação, suor, diarréia, falta de apetite e vontade intensa de usar a droga”, diz Laranjeira.”

E o jornal nos informa que Laranjeira estaria no fórum de sexta feira passada, com a União de Estudos Sobre o Álcool e as Drogas (UNIAD) na universidade federal, com a presença do próprio “Laranjeira e outros seis maiores especialistas brasileiros no assunto.”

O convidado especial dessa homenagem alega “avanços” no “tratamento de usuários de maconha”, ele é o especialista que vem de fora: Professor Robert Stephens, que “escreveu artigos sobre tratamento da maconha e vai falar sobre o Marijuana Treatment Project (MTP), um estudo americano multidisciplinar para testar a efetividade de tratamentos breves para usuários da droga. Stephens é o criador da escola para problemas com a maconha”.

Maravilhoso, caro leitor, Stephens tem um “projeto” e uma “escola”, mas também é apresentado com alguém que “testa a efetividade” de seus próprios projetos!

Renato Lombardi, do Estado de São Paulo, então nos informa que “a Uniad criou em 2000, o primeiro ambulatório destinado aos dependentes de maconha, separado do atendimento prestado aos dependentes de cocaína e álcool”.

Ao explicar a diferença entre usuários de maconha e “dependentes” e outros usuários de drogas, Flávia Jungerman coordenadora da clinica, é citada falando, “dificilmente um dependente de maconha vai roubar um carro para comprar a droga, como é comum acontecer com dependentes de cocaína”. De acordo com ela, o consumidor de maconha vai mal na escola, não consegue trabalhar e tem dificuldade de concentração”. (Isso na mesma matéria que fala que 26% dos estudantes da universidade local – isto é, gente que foi bem na escola e pode entrar na universidade – fuma maconha!)

Aparentemente, de acordo com Lombardi do Estado de São Paulo, o programa brasileiro é ainda mais famoso do que o programa de Stephens nos Estados Unidos, que tem 129 pacientes: desde sua inauguração em 2000, a clinica brasileira atraiu mais de “300 pacientes”. Isso é, cerca de dez por mês.

Mas o perigo maior que se pode encontrar entre esses usuários de maconha também é citado no artigo: “Dos que procuraram a Uniad, 44% tiveram algum contato com a polícia.”

Portanto, com um desonesto especialista estadunidense e seus aliados paulistas promovem sua indústria de “tratamento do uso da maconha”, nos encontramos novamente no ponto inicial: o verdadeiro problema é que a maconha é ilegal e leva, de acordo com os mesmos especialistas de “tratamento”, quatro entre nove usuários “o contato com a polícia”.

Como a Juíza Maria Lúcia Karam, presidindo o fórum de sexta feira no Rio de Janeiro, declarou em seu veredicto, há um crime sendo cometido e um culpado para ser buscado: “O Estado,” ela declarou, “é culpado.”

E um dos principais culpados desse crime é o lobby do tratamento de drogas, viciado no financiamento do governo para levar adiante seu terrorismo chamado de Justiça Terapêutica, um terror fabricado nos Estados Unidos, que agora tem sua divisão de “tratamento de maconha” sendo exportada, como outros produtos que já não possuem aceitação nos Estados Unidos, para o Brasil.

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